[20] Caderno de Ensaio Monográfico

Que tipo de homem queremos ser daqui a dez anos?

A maioria dos homens planeia a sua década com ferramentas de economista: metas financeiras a atingir, degraus hierárquicos a escalar, metros quadrados da casa a comprar e marcas de carros a estacionar na garagem. Estes objetivos não são necessariamente condenáveis, mas padecem de uma insuficiência trágica: respondem à pergunta «o que terei?», enquanto deixam no mais completo abandono a pergunta infinitely mais decisiva: «que tipo de homem serei eu quando tiver tudo isso?».

Que tipo de homem queremos ser daqui a dez anos?

O Desafio da Gravidade Moral

Há homens que envelhecem com leveza mesquinha: tornam-se velhos amargurados, cínicos, ressentidos com a juventude que passou e obcecados pelas pequenas queixas do seu quotidiano. Outros, pelo contrário, adquirem com o passar dos anos uma densidade moral, uma calma majestosa e uma benevolência firme que atraem naturalmente a confiança e o respeito de todos os que deles se aproximam.

Essa gravidade moral não surge por acaso aos cinquenta ou sessenta anos; é o resultado do trabalho diário de depuração realizado hoje. Cada pequeno ato de coragem ética, cada renúncia a um benefício fácil que custaria a nossa dignidade e cada esforço para engolir a vaidade egoísta é uma pedra talhada que assenta os alicerces do homem que seremos amanhã.

A Fidelidade aos Valores Essenciais

Daqui a dez anos, o mundo terá mudado de forma vertiginosa: novas tecnologias terão tornado obsoletas muitas das nossas competências profissionais atuais; crises geopolíticas e económicas terão abalado certezas que hoje parecem inabaláveis; amigos terão partido e novos laços terão nascido. Se ancorarmos a nossa segurança em fatores externos, seremos joguetes nas mãos das tempestades da história.

O homem com carácter possui uma âncora interior que não depende das modas da época: a lealdade inabalável aos seus princípios de justiça, a recusa de ser cúmplice da cobardia coletiva e a disposição permanente para proteger os que são mais débeis do que ele. Esse homem pode perder tudo no tabuleiro exterior e continuar a ser um rei no seu próprio reino interior.

A Relação Serena com a Própria Mortalidade

Projetar uma década é, inevitavelmente, aproximar-se da fronteira da nossa própria finitude. Um homem que compreendeu a sua mortalidade não tem tempo a perder com rivalidades insignificantes, com picardias de escritório ou com a necessidade histérica de provar aos vizinhos que é bem-sucedido.

Ele quer ser um pai cuja memória inspire serenidade e coragem aos filhos; um amigo cuja presença seja sinónimo de porto de abrigo seguro; e um profissional cuja obra tenha deixado o mundo um milímetro mais justo, mais belo e mais bem cuidado do que o encontrou ao nascer.

O Pacto Solene com o Presente

O homem que queremos ser daqui a dez anos não se constrói numa revelação mística futura; constrói-se na decisão silenciosa que tomamos ao acordar amanhã de manhã. Na forma como respondemos ao primeiro e-mail áspero; na paciência com que escutamos a mulher que partilha a cama connosco; na coragem de fechar o computador para ir dar uma corrida na chuva; e na dignidade de saber dizer «não» àquilo que não nos honra.

Pensar melhor para viver com intenção não é um lema decorativo; é o compromisso inegociável de quem recusa viver uma existência em piloto automático e decide, com sobriedade e coragem viril, assumir a autoria integral do seu próprio destino.

“No final da linha, ninguém recordará a elegância dos seus discursos corporativos ou a marca dos seus sapatos; a única herança que resiste à erosão da sepultura é o carácter com que tratou os outros e a fidelidade com que honrou a sua própria palavra.”
Homens & Carácter / Ensaio de Encerramento
Observações Editoriais • Aplicação Prática
  • Escreva num caderno reservado uma carta para o homem que você será daqui a dez anos, definindo os três valores éticos inegociáveis que se recusa terminantemente a trair.
  • Avalie o impacto das suas decisões diárias não pelo prazer imediato que proporcionam, mas pela marca que deixarão na memória dos seus filhos e dos seus amigos leais.
  • Cultive a serenidade de quem sabe que o tempo passa para todos: envelhecer com carácter é a obra de arte suprema da vida adulta.

Conclusão Editorial

O futuro não nos deve nada. Mas nós devemos a nós próprios e aos que nos rodeiam o esforço sagrado de nos tornarmos homens dos quais nunca tenhamos de nos envergonhar.