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O que acontece quando o trabalho ocupa demasiado espaço na nossa vida?

Pergunte a um homem numa reunião social quem ele é, e ele responderá invariavelmente com a designação do seu cargo: «Sou diretor comercial», «Sou sócio de uma sociedade de advogados», «Sou engenheiro de software». Esta resposta pronta parece inofensiva, mas encerra uma das maiores patologias do nosso tempo: a redução do ser humano à sua função na maquinaria económica.

O que acontece quando o trabalho ocupa demasiado espaço na nossa vida?

A Embriaguez da Ambição sem Fim

A ambição é uma força motriz saudável quando orientada para o domínio de um ofício, a criação de utilidade real e a provisão segura da própria casa. Torna-se, todavia, venenosa quando se transforma num jogo abstrato de pontuação infinita. Mais um contrato fechado, mais um aumento salarial, mais um patamar hierárquico que, uma vez alcançado, proporciona apenas alguns dias de alívio antes de surgir a ânsia pelo degrau seguinte.

Nesta roda de hamster sofisticada, a vida presente é permanentemente hipotecada a favor de um futuro mirífico que nunca chega. Adiam-se as viagens com os filhos, o cuidado com a saúde física e o convívio com os amigos sob a justificação constante de que «este trimestre é decisivo». Todos os trimestres acabam por ser «decisivos» até que a vida passou.

O Vazio da Desconexão Íntima

O homem que passa catorze horas por dia absorvido em disputas corporativas chega a casa esgotado. Já não tem energia psíquica para escutar com paciência as pequenas novidades do dia dos filhos ou para sustentar uma conversa profunda com a sua companheira. Torna-se um fantasma bem-remunerado a circular pela sala de estar.

Com o tempo, essa ausência cobra um preço pesado. Os filhos crescem e aprendem a não contar com a sua presença; o casamento esfria até se reduzir a uma sociedade de gestão doméstica; e o homem acaba por se refugiar ainda mais no escritório, onde pelo menos sente que domina as regras do jogo e recebe a gratificação do controlo.

A Fragilidade de uma Monocultura Interior

Em agricultura, uma monocultura é extremamente vulnerável: se uma praga específica ataca a plantação, tudo se perde de um dia para o outro. O mesmo acontece na alma do homem que só cultiva a dimensão profissional. Quando ocorre uma reestruturação na empresa, uma falência inesperada ou a reforma compulsória, ele sofre uma crise de identidade aniquiladora. Sem o título no cartão-de-visita, não faz ideia de quem é.

A maturidade exige diversificação de interesses vitais: o amor às artes manuais, a dedicação a uma causa cívica, o prazer de ler história ou a lealdade a um círculo de amizade. Estas raízes múltiplas são as que impedem o tombo quando o vento forte da economia sopra na direção errada.

“Se tudo o que resta de um homem quando retira o fato de trabalho é o silêncio vazio e o cansaço, então ele não é dono de uma carreira de sucesso; é apenas propriedade dela.”
Homens & Carácter / Ofício & Limites
Observações Editoriais • Aplicação Prática
  • Estabeleça um limite inviolável para o encerramento das comunicações profissionais durante a noite e durante os fins de semana.
  • Cultive pelo menos um interesse sério que nada tenha a ver com a sua área profissional e que não possa ser monetizado.
  • Recorde-se com frequência: nenhuma empresa recordará os seus sacrifícios de noites mal dormidas dez anos após a sua saída; os seus filhos, sim.

Conclusão Editorial

Trabalhar com rigor e brio é uma virtude cívica inegável; permitir que o trabalho consuma a totalidade da alma é apenas uma forma requintada de cobardia perante a exigência mais vasta de viver plenamente.